Eu vivo para além dos rios,
vivo nas areias anatómicas e cavernosas da memória
nos labirintos exaltados do poema.
Fui tocado pela mão direita de deus
no instante genial
do corte umbilical desde a filiação dos ossos
à massa líquida do sangue.
Recordo a água dos rios
nas margens tenebrosas do esquecimento
falo vivo enlouqueço nas águas
de fome alegria desespero
a noite é minha digo.
Na minha loucura sombriamente pura
chamam-me louco desesperado da vida,
deixem-me abandonar o mundo...
A artéria iluminou-se de luz branca
as mães deram-me o leite cantante
na sua filiação de mães exaltavam alegria
pelos olhos brilhavam de pavor
iluminavam-se por dentro
eu absorvia
observava o movimento dos astros
crescia
desenvolvia-se a matéria.
O poema esse é puro
como a noite escura.
nunes/ 08 |