Poema

Quando partiste o sol escondeu-se nos novelos
de linho acinzentado   que as tecedeiras volviam no
silêncio profundo das coisas    - porque a memória
é um silêncio tremendamente profundo
e puro para quem canta o silêncio dos movimentos
interiores

E as bátegas de chuvas formavam no vidro da
janela cordas de violoncelo adulto que iluminavam
o movimento interno do silêncio no torpor
da casa

E eu quero gritar para além do horizonte desta loucura
No meu choro louco de criança desvairada
movimenta-se
um peixe debruado a ouro   na alquimia
das lágrimas
e as vozes silenciosas  silenciam o silêncio de tudo
no instante das coisas

Eu agora grito para além do horizonte
desta loucura
e as palavras são puras   no seu interior   como as
raízes do lírios loucamente se expandem
nos alvéolos da terra
sob o excelso interior das imagens    que também
são puras e se movimentam na cor dos limbos
para lá de toda esta loucura    sombriamente pura

Nunes/ 99

 

Poema

Trabalho árdua e continuamente   
no oficio das palavras - primeiras    a cal que queima
o sangue    quando
se lhe toca profundamente

e todo o corpo treme volvido o primeiro frémito
da cabeça às raízes dos pés    que são profundas sobre a terra
e germinam girassóis acesos    como astros
no interior da lava    e os olhos dos gatos são dois pontos de luz
na memória
que se incendeia como tocha no labirinto radial do corpo

o poema fulmina-se e irradia   faúlhas
nos canais interiores do sangue    que queima o corpo
no delírio louco das palavras

e o poema ascende como um violino
borbulhando    na luz interior das casas    que são brancas
como a cal dos muros    que têm grandes arcos
iluminados a rosas    no pavor da luz que delas
se solta    quando fendidas - e o meu amor por ti
é tão grande

o poema faz-se no corpo de encontro ao corpo    no silêncio
demorado e único de quem vive o interior das coisas
em planos intrinsecamente ligados pela combustão das próprias coisas

o poema    solto    vivo    completo
espalha-se pelo braço    espelhando luz na continua
maceração das palavras
que se alumiam    como candeias
na arborescência dos limbos

e o poema agarra-se às paredes da casa    às mesas    às cadeiras
e trás para si toda a luz e treva    da casa   das casas    dos sonhos
das outras casas    consumindo tudo

Em baixo o eixo voltaico    volteando clavicórdios enaltecidos
no pavor único do poema    que vive
no alor desmedido de um barco com nódulos de sol
sobre a água

o poema queima    e arde dentro de nós    destruindo tudo    reencontrando tudo
no rastro continuado da cal

Nunes/ 99

Poema

No principio é assim: instável  inseguro  muitas palavras silenciosas
agitação  convulsão metafórica e metapoética
depois digo: tenho a voz enorme do silêncio e é grande o cântico
interior das palavras

Continuando: toco nas pedras profundas da noite iluminada
e acordo as palavras sob o alabastro das searas nocturnas.

- A voz está lá  é só tocar a terra com as mãos em fogo.

É o mês de Julho  mas o que é Julho no meio de tantos meses  anos
e séculos  quando rodam longe as constelações primeiras
da alquimia do verbo.

- é preciso tocar fundo as inumeráveis
e agitadas águas dos rios
agitar-se por dentro  não ter medo do sopro que inicia a repiração.

toco na pedra silente de um ritmo
E a respiração azul de uma palavra ilumina-se
a ouro na noite laboriosa.

-É na cor da respiração  tocada de súbito
que a extracção de luz se inicia.

(regresso ao arrebatamento da luz dissolvida na água)

Estou num tempo outro  dentro de uma solidão enorme
tremendamente terrífica  assombrosamente incalculável
obscuramente iluminada
como se a idade fosse  num outro tempo
muito antigo  antiquíssimo.

Espalhados pela casa estão os teus sinais  espelhando gestos
odores  sons  mas a casa está vazia  ANAHORI

O teu nome é uma palavra carregada de sombra
e luz no instante de a pronunciar.

Estou sentado com a minha idade  é uma idade crepuscular
nocturna
mas o que é a idade  quando olho para lá do horizonte.

-É uma idade total  completa
que espera
com voracidade  a boca dobrada do teu tempo.

Nunes / 99

 

FOLHA VOLANTE

 

IDEIAS

Algo abstracto que se vai convulsionando na mente, criando fórmulas, símbolos, gestos, etc…
ATITUDES
NOA NOA DADA ROCK DADA VIVA A LIBERDADE
DADA ANULA TUDO
DADA CRIA TUDO
DADA EXISTE
Em tudo o que se move ou está em CONVULSÂO
Daí a IDEIA
De existência destas IDEIAS para que
DADA EXISTA
DADA SE CONVULSIONE
Perante a apatia, admiração (boquiaberta ou não), nervosismo, medo, daqueles que não se CONVULSIONAM
DADA É MERDA
DADA É DE LOUCOS
DADA DIZ NÃO À CULTURA
DADA É NADA
NO MOMENTO EM QUE EXISTE
DADA É TUDO

DADA É TUDO O QUE VOCÊS QUEIRAM
PARA QUE SE CONVULSIONEM
DURANTE O EXISTIR

 

A REVOLUÇÃO  JÁ  E  SEMPRE

Nunes / 2001

 

 

Saio de dentro do sono
Toco o ar com  a respiração
Visita-me a memória de uma língua
Abandonada
Como uma flor de sal rodeada de silêncio
Era um tempo dentro de outro tempo
Onde os corredores se interligam
No silêncio das palavras

 

Nunes / 06

 

Eu vivo para além dos rios,
vivo nas areias anatómicas e cavernosas da memória
nos labirintos exaltados do poema.
Fui tocado pela mão direita de deus
no instante genial
do corte umbilical   desde a filiação dos ossos
à massa líquida do sangue.
Recordo a água dos rios
nas margens tenebrosas do esquecimento
falo  vivo   enlouqueço nas águas
de fome  alegria  desespero
a noite é minha   digo.
Na minha loucura sombriamente pura
chamam-me louco  desesperado da vida,
deixem-me abandonar o mundo...
A artéria iluminou-se de luz branca
as mães deram-me o leite cantante
na sua filiação de mães  exaltavam alegria
pelos olhos  brilhavam de pavor
iluminavam-se por dentro
eu absorvia
observava  o movimento dos astros
crescia
desenvolvia-se a matéria.
O poema  esse  é puro
como a noite escura.
 
nunes/ 08

 

 

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