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António Nunes, ((©)Maria Carapeto) |
Acerca do Autor
Nasceu a 25/09/1964 no Alentejo
É autodidata
Exposições Individuais:
Em Julho de 2001, realiza na Delegação Regional do Inatel, em Évora a exposição "Percursos".
Em Junho de 2001, realiza na Casa da Cultura de Mora, a exposição "Percursos".
No ano de 1995 participa na II Mostra de Arte Jovem, com os primeiros desenhos de sua autoria, e no Salão de Artes Plásticas "Alentejo contra o Cancro" organizado pelo G.A.E. (Grupo Apoio de Évora) da Liga Portuguesa Contra o Cancro.
Em Janeiro de 1994 realizou a Instalação "Fragmentos" baseado no poema "O Operário em Construção", de Vinicius de Morais.
Organizou com o apoio da Câmara Municipal de Mora em 1990 a I Mostra de Arte Jovem, onde participou com poemas da sua autoria.
Exposições Colectivas:
Em Julho de 2008, participou na exposição "Colectiva 5" em Évora
Em Julho de 2007 participou na Exposição "Encruzilhadas" realizada na Biblioteca Municipal de Ponte de Sôr
Em 2001 participou na 7ª Exposição Internacional de Artes Plásticas de Vendas Novas

"Tudo em meu turno é o universo nu, abstracto, feito de negações nocturnas.
Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafísico do mistério das coisas. Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma de vida quotidiana bóiam-se-me à superfcie da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir.
Outras vezes, acordo de dentro do meio-sono em que estagnei,
e imagens vagas, de um colorido po ético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espectáculo sem ruidos."
F. PESSOA in 'Livro do Desassossego'
De que fala a pintura de António Nunes?
Antes disso, uma questão prévia se levanta. Estaremos nós perante pintura, desenho ou originais de gravuras?
Linhas, ideogramas, símbolos, cores, traços diáfanos...
É este o vocabulário minimalista com o qual o autor constrói a sua linguagem.
Mas, o que nos quer comunicar? Haverá alguma mensagem para ser decifrada?
Desde sempre presente nas antigas linguagens da humanidade, o ideograma é portador de um valor mágico e encantatório. Vemo-lo também aqui como estruturante e suporte da imagem final. E, todavia, não é por ele que chegamos à conclusão da existência de uma 'ordem', nem tampouco de uma 'desordem', instalada nos quadros postos à nossa apreciação. Há, se assim o entendermos, uma lógica.
Um fio condutor cuja génese vai além do que é real. Nasce da tentativa experimental de expressar através de signos, determinados objectos filosóficos que mais não são, no fundo, do que os estados de alma do autor. -
Entramos no campo da intimidade pessoal, das angústias, dos recalcamentos, da tensão psicológica e da sua sublimação.
E, todavia, esta não é (ainda?) a chamada arte psi.
Não sei se estou perante uma questão do domínio da expressividade plástica ou da catarse psíquica.
Porque nem num nem noutro caso encontro suficiente justificação do que aqui está presente.
O que tem de ser realçado, ataque-se o problema do ângulo que quiserem, é a estilização conseguida na abordagem (umas vezes subtil, outras provocatória) de temas como o erotismo ou a sexualidade, assumindo o risco da sua incompreensão formal. Ainda a coerência do conjunto exposto.
Á arte dita moderna tem por fundamento, "grosso modo' a expressão da subjectividade, dos sentimentos de tensão e de crise. Na sua maioria, as pessoas são totalmente incapazes de apreciar tal coisa, sendo este um bloqueio mental que se encontra distribuído de modo bastante democrático por todas as classes sociais. Veremos como reage o público.
A António Nunes é devida uma palavra de aplauso e incentivo.
No turbilhão de uma vida, desde a infância repleta não de momentos felizes mas de amargas experiências, é de aplaudir a coragem da sua atitude em não desistir. De assumir um impulso criador e continuar activo. Na expressão plástica, de certa forma, encontrou a emancipação individual e até, a generosidade de se nos mostrar – porque expor é sempre expor-se, revelar e partilhar colectivamente.
Também aqui se deixa um incentivo para que, em humildade, sem complexos, reconheça a necessidade de afundar a exploração da técnica, dos meios operativos, do enriquecimento da sua integridade.
A finalizar, refira-se que ao olharmos estes trabalhos de António Nunes somos levados a reconhecer algumas, tão modestas quanto incontornáveis, referências às obras de mestres consagrados.
De Paul Klee vemos a linha como percurso e caminho, a 'linguagem de sinais', de formas que constituem imagens de ideias, tal como a forma de uma letra é a imagem de determinado som, ou uma seta pode ser a imagem de 'sentido obrigatório'.
A Joan Miró, leva-nos o desenho mais curvilíneo e fluido do que geométrico, no estilo a que chamaram 'abstracção biomórfica'. E também o apego à noção surrealista da possibilidade de transpor um sonho directamente do subconsciente para a tela uma teoria fortemente entremeada de conceitos psicanalíticos.
Dos neoplasticistas, principalmente de Mondrian, é-nos evocada a utilização da cor duma forma orgânica, isto é, ocupação de espaços resultantes da destruição do plano através de linhas que o cortam, por cores lisas, quase
sempre as primárias.
Mas também nos chega um diáfano perfume de Movimento Dada e um mais carregado odor da plasticidade do catalão Antoni Tàpies.
Ao visitar estas correntes artísticas, o autor mais não faz do que percorrer o caminho que todo o bom aprendiz deve seguir, devidamente armado de Curiosidade, Humildade e Experimentação.
E assim, provavelmente, chegaremos ao sentido da expressão que dá título a esta exposição, PERCURSOS.
“Deus é um artista como qualquer outro; inventou a girafa, o cão, o gato; não tem propriamente um estilo, continua a fazer experiências."
P. PICASSO
É evidente que, a este quadro de referências, o autor acrescentou o seu 'apporf pessoal, os dados do sentimento e os do pensamento. Toda a obra de arte é feita de 10% de inspiração e 90% de transpiração!!
O que temos presente diante de nós será, portanto e no melhor dos sentidos, uma citação.
Porém, no meu ponto de vista, é uma citação perfeitamente citável.
Manuel Luis Canelas / 2001